CONCURSO LITERÁRIO

PROFESSORA ROSINDA

DE OLIVEIRA

3ª EDIÇÃO

2020/21

APOIO

CAROLINA

FERREIRA

1º PRÉMIO

4º ESCALÃO

VENCEDORES

1º ESCALÃO

1º PRÉMIO .  PEDRO DE LÁZARO FREITAS . A vingança da raínhas dos tremoços

2º PRÉMIO .  AFONSO MARTINS RODRIGUES . A grande fuga do Serafim

3º PRÉMIO .  INÊS OLIVEIRA MARTINS . Josefina e seus gatinhos

MENÇÃO HONROSA  .  ALEXANDRA PASCOAL MATIAS . A aventura da raínha de Inglaterra

4º ESCALÃO

1º PRÉMIO .  CAROLINA FERREIRA . O diário de uma pandemia

2º PRÉMIO .  SÉRGIO MORAIS . Memória de Elefante

3º PRÉMIO .  MANUEL LUÍS CORREIA . Uma história do cabo da guarda

MENÇÃO HONROSA  .  ANA BEATRIZ BERNARDO . Carta de despedida

*por decisão do Juri, nem o 2º nem o 3º escalões, mereceram atribuição de prémio.

os textos vencedores

PEDRO DE LÁZARO FREITAS

1º PRÉMIO 1º ESCALÃO

A vingança da raínha dos tremoços

Há muito muito tempo, quando ainda voavam por aí dragões, entre o Monte Amêndoa e o Monte Noz, havia um pequeno planalto.

Esse planalto não era habitado. Até que passados 8 anos, um povo nómada chamado Tremoços descobriu-o, e decidiu ficar com ele. Os Tremoços começaram a criar o seu território naquela pequena elevação de terreno e elegeram uma rainha que, a partir desse dia, ficou conhecida como a Rainha dos Tremoços.

Ela fez muitas obras: o “Jardim Zoológico do Tremoço”, o “Hotel Tremoparaíso” e até o maior parque aquático da região, o “Áquamoço” que, nos meses de verão, atraía muitos turistas. A Rainha, também, tornou o seu reino num local verde e limpo, onde não havia poluição.

A única coisa que os habitantes da Tremoçolândia não gostavam era de uma parte do carácter da Rainha, pois em certas situações mostrava-se invejosa, vingativa e até rude.

Certo dia, um mensageiro vindo do Monte Amêndoa e outro vindo do Monte Noz, entraram no palácio e disseram (em coro) à Rainha dos Tremoços:

- As Rainhas Amendoeira III e Nogueira II desejam falar-lhe na Corte Real de amanhã.

Finalmente a minha primeira reunião! – Gritou a rainha entusiasmada.

No dia seguinte, dirigiu-se à Corte e as três rainhas falaram sobre as grandes riquezas dos seus reinos:

​- Já vos contei da minha Torramêndoa! – Exclamou a Rainha Amendoeira III.Não tenho uma torre – disse a Rainha Nogueira II –, mas tenho a Pirâmide de Noz.

Depois de conviverem, elas combinaram fazer um acordo de paz e uma grande estátua com as bandeiras dos três reinos. No entanto, a Rainha dos Tremoços não gostou que a bandeira do seu povo fosse a mais pequena da estátua e, de imediato, perguntou às outras duas Rainhas:

- Por que é que a bandeira do meu povo é a mais pequena da estátua?

- O teu reino é pequeno e insignificante neste nosso acordo de paz! – Respondeu a Nogueira II, escondendo o seu riso de gozo por de trás do seu leque.

Foi então que a Rainha dos Tremoços percebeu que a estavam a desprezar e decidiu vingar-se: primeiro, preparou um ataque estratégico; segundo, mandou fazer armaduras e

armas da casca mais rija dos tremoços e, por fim, mandou atacar quando já estavam todos a dormir. Nessa batalha houve muita tarte de amêndoa e bolo de noz, a voar.

Depois da vitória dos Tremoços, estes passaram a ser muito mais respeitados e a Rainha dos Tremoços foi amada e honrada de uma forma tão séria que parecia ter um poder divino!

Apesar de pequeno, o Reino dos Tremoços mostrou aos outros reinos que, com garra e união se podem fazer grandes batalhas e vencer enormes adversários.

AFONSO MARTINS RODRIGUES

2º PRÉMIO 1º ESCALÃO

A grande fuga do Serafim

 

Num final de tarde de outubro, o Senhor Pascoal, guarda no Zoo de Vicala, fazia a sua última ronda pelas jaulas dos macacos. Quando passava perto da jaula do Serafim, que era um chimpanzé espertalhão, o Senhor Pascoal escorregou numa casca de banana e zás…, deu um grande trambolhão e caiu mesmo de rabo no chão. Levantou-se muito zangado e disse:

- Estes macacos são mesmo porcalhões!

Como estava com muitas dores nas costas por causa da queda, o Senhor Pascoal nem sequer deu conta que, ao cair, tinha perdido o molho de chaves que trazia preso na cintura.

Serafim, o chimpanzé espertalhão, assim que viu cair as chaves, esticou o braço e apanhou-as, sem o Senhor Pascoal ver. Sem se atrapalhar, entre uma chave e outra, o Serafim conseguiu abrir a sua jaula e, com alguns pulos e uma corrida, chegou ao portão principal do Zoo. Abriu-o e lá foi ele.

Quando recuperou um pouco das dores, o Senhor Pascoal olhou para a jaula do Serafim, viu a porta aberta e, nada do Serafim! Pegou no seu telemóvel e avisou os outros guardas do Zoo:

- Alerta! Alerta! Macaco em fuga!

Apareceram logo os outros guardas e começaram todos à procura do Serafim. Quando o viram já fora do portão principal, desataram a correr atrás dele, todos ao monte. O Senhor Pascoal ia à frente com uma rede para o apanhar.

- Agarrem esse macaco! – gritava o Senhor Pascoal. Mas Serafim era muito ágil e conseguia escapar.

- Abram alas para o Serafim! – gritava o chimpanzé, enquanto fugia.

Saltou por cima de um carro cinzento, que estava parado no trânsito, com um condutor muito assustado a ver tanta confusão e um cão que salivava na janela de trás.

No meio da fuga, o Serafim saltou para cima de uma mota que passava. Os guardas do Zoo seguiram atrás, num carro amarelo, todos ao molho, com as redes no ar para o tentarem apanhar.

- Parem esse macaco! – gritavam os guardas.

A mota ia atrás de um camião, o Serafim olhava para trás e gritava para o condutor:

- Mais rápido! Mais rápido!

De repente, a mota ultrapassou o camião, acelerou e nunca mais ninguém a viu.

O carro amarelo ficou atrás do camião com os guardas todos ao monte, muito irritados por terem perdido o rasto do Serafim.

O Serafim, todo contente, foi de boleia na mota até à entrada da floresta. Aí, deu um grande salto para o cimo de uma árvore, onde ficou a rir-se e a olhar a confusão, ao longe na cidade.

- Grande Serafim! Agora, és um chimpanzé livre! – gritou emocionado.

INÊS OLIVEIRA MARTINS

3º PRÉMIO 1º ESCALÃO

Josefina e seus gatinhos

 

O ruidoso barulho da Rua Vasco da Gama (em Lisboa), acordou a senhora Josefina, uma mulher muito corajosa e agitada, mas muito solitária. Sempre que acordava, a senhora Josefina vestia o seu robe e calçava as suas pantufas para ir tomar o pequeno-almoço. Normalmente, comia pão torrado e bebia um sumo de laranja, mas hoje, Josefina quis variar. Cortou várias frutas: melão, morango, manga, pêssego, e melancia e fez uma salada de frutas. Enquanto levava o pequeno-almoço para a mesa, tropeçou num sapato e deixou cair tudo ao chão. Furiosa com a situação, Josefina saiu de casa sem tomar o pequeno-almoço, pegou nas chaves do carro para ir para o trabalho. No caminho, Josefina encontrou uma caixa no meio da rua com a palavra “AJUDA”. Curiosa, saiu do carro, pegou na caixa com medo e, abriu-a: “AI MEU

DEUS! Três gatinhos bebés!” A senhora Josefina ficou espantada e exclamou:

-Que fofos! Acho que vou ficar com eles!!

Dizendo isso, pôs a caixa dentro do carro e foi rapidamente para casa. Colocou os gatinhos na sua cama e foi para o trabalho.

Após  sair  do  trabalho  e,   antes   de   ir   para   casa,   a   senhora   Josefina   foi a uma loja de acessórios para animais e ficou espantada com a variedade de objetos que encontrou. Indecisa, chamou a empregada e perguntou:

- Quais as camas mais bonitas para os meus três gatinhos?

– Eu gosto muito da nova coleção “FOFURAS E TRAVESSURAS” e temos três camas: a rosa, a amarela e a azul.

Josefina comprou as camas, as tigelas para eles comerem e as coleiras para passearem. Regressou a casa para ir ter com os seus adoráveis gatinhos.

A primeira coisa que a senhora Josefina fez, foi dar um nome a cada gato (dois machos e uma fêmea). Ao gatinho preto de olhos amarelos, deu-lhe o nome de Chantilly; ao gatinho branco de olhos azuis, o nome de Milk e à gatinha amarela de olhos verdes, o nome de Molly. Na hora de dormir, Josefina pôs a Molly na cama cor- de-rosa, o Chantilly na cama amarela e o Milk na cama azul. Passados alguns meses, os gatos já estavam grandes e fortes e Josefina brincava muito com eles.

Certo dia, a senhora Josefina teve de ficar em casa, pois não podia sair porque estava em quarentena. Só podia sair de casa para o necessário. Josefina já estava farta de estar em casa! Já estava farta daquela doença chamada COVID19! Então, decidiu arranjar um local onde os seus gatinhos pudessem divertir-se e viver normalmente. Mas, um dia, quando Josefina estava no jardim a regar as flores, os gatinhos saíram de casa porque estavam muito entediados. Quando Josefina voltou para dentro de casa, apercebeu-se de que os seus gatos tinham fugido.

-Os meus gatos onde estão? – grita com muita força e quase a chorar.

Então Josefina saiu para os procurar em todos os locais das redondezas, mas não os encontrou. Mas, de repente, ouviu uns gatos a miar. Aproximou-se e viu os seus lindos gatos juntinhos de uma gata adulta e pensou “Será que esta gatinha linda é a mãe deles? Provavelmente, é!”. Decidiu acolhê-la e deu-lhe o nome de Fofura.

Viveram muito felizes, pois faziam-lhe companhia e Josefina deixou de sentir a solidão em que vivia.

ALEXANDRA PASCOAL MATIAS

MENÇÃO HONROSA 1º ESCALÃO

A aventura da Raínha de Inglaterra

Tudo começou num dia de verão, no palácio Buckingham, um  monumento muito bonito e grande, na cidade de Londres, em Inglaterra. A Rainha e os seus empregados passeavam à beira do lago do vasto jardim do palácio, onde a água fresca, limpa e brilhante, refletia o céu azul, com farrapos de nuvens branquinhas que nem conseguiam tapar o sol. O tempo estava maravilhoso e ameno!

Tudo estava a correr bem, mas, de repente, avistou alguém a fugir e a Rainha achou muito estranho e, resolveu iniciar uma perseguição, que correu mal, por culpa do vestido que trazia (uma Rainha tem de andar sempre de vestido!), pois provocou-lhe uma queda e não conseguiu apanhar quem perseguia! Ela só pensava: “Como é que alguém tinha conseguido entrar no palácio e o que estaria ali a fazer?”.

A Rainha não parava de pensar no que tinha acontecido e, em vez de chamar a polícia ou um detetive, pensou: “Eu vou desvendar este mistério, nem que seja a última coisa que eu faça!”. E foi isso que aconteceu! A Rainha, no dia a seguir, acordou bem fresquinha e alegre para a sua aventura. Vestiu a sua roupa de aventureira (uma camisa branca, uma casaca, uma saia calção azul, a sua cor preferida, umas sapatilhas brancas, um chapéu azul e uma mochila, com o seu telemóvel, um kit de sobrevivência, lenços, a carteira do dinheiro, uma garrafa de água e, por último, algo para comer). Conduziu sozinha o seu Ferrari branco, e foi à procura de pistas, mas não encontrou nada! Informou-se sobre a existência de roubos ultimamente, mas nada!... Então, regressou ao palácio e uma das suas empregadas comunicou-lhe que, mais uma vez, alguém desconhecido tinha novamente entrado no palácio. A Rainha, muito assustada, pensou: “O que hei de fazer?!”. “Já sei, vou parar de pensar nisto por algum tempo e vou dormir que já se faz tarde!”.

No dia seguinte, acordou e foi tomar o pequeno-almoço. Ao afastar a cadeira, reparou num papel que estava caído no chão. Decidiu abri-lo e leu o que estava escrito:

Caro senhor Rogério,

Eu sou o Amadeu, um dos seus espiões e queria perguntar quando é que volto a ir ao palácio espiar a Rainha.

Para além disso, comunico que a primeira e a segunda vez que lá fui, correu um pouco mal, porque me viram, mas isso não voltará a acontecer. Da próxima vez vai correr melhor, e levar-lhe-ei boas informações.

Se me quiser encontrar pessoalmente, a minha morada: Rua do Hawai, nº 79, Londres.

Cumprimentos,

Amadeu.


 

Quando a Rainha acabou de ler, ficou espantada, e pensou: “Já sei onde vou procurar, amanhã!”.

Chegou o dia seguinte. A Rainha preparou-se e dirigiu-se ao local referido no papel. Bateu à porta. A pessoa que abriu a porta, ficou tão pasmada como se fosse uma estátua! A Rainha teve uma longa conversa com o senhor Amadeu que lhe explicou tudo, porque tudo tinha uma razão: naquele mês, ele tinha gastado muito dinheiro, porque a sua mulher estava grávida e, como era a primeira vez que iriam ter um filho, tiveram que comprar as coisas para o bebé, por exemplo, o berço, as mantas, as fraldas,… então, aceitou o trabalho como espião, para conseguir pagar, e ter uma vida em condições. Depois desta explicação, a Rainha compreendeu o que tinha acontecido e decidiu ajudar o senhor Amadeu a ter uma vida melhor. Ajudou-o a pagar as contas, a construir uma casa com todas as comodidades e deu-lhe um trabalho no palácio.

Desde aí, a Rainha começou a sentir-se mais amável, carinhosa e feliz.

Para ela, tudo isto foi uma aventura, que não podia ter sido realizada por qualquer pessoa comum!

CAROLINA FERREIRA

1º PRÉMIO 4º ESCALÃO

Diário de uma pandemia

 

14 de março de 2020

 

Proibiram-nos as visitas. O que será destes dias cada vez mais isolados e envelhecidos? Não quero acreditar que perdure no tempo esta indefinição, este desconhecimento, esta sensação de impotência. Sinto-me a cada hora mais só e condenada à solidão. Os telefonemas da minha neta sabem a pouco, muito pouco, quase nada. Sinto falta da sua mão na minha, dos seus olhos nos meus, do seu abraço doce na despedida. Os auxiliares aparecem-nos de máscara e viseira. Parece o fim do mundo. Talvez seja mesmo. O fim do mundo como o conhecemos.

20 de abril de 2020

 

Os sorrisos dos outros desapareceram dos nossos dias. Às vezes consigo vislumbrá-los em alguns olhares mais duradouros. Mas leio sobretudo muita tristeza nas expressões corporais que sobraram visíveis. As máscaras desumanizam-nos, tornam-nos menos tolerantes e afáveis, fecham-nos mais no mundo cá de dentro e isolam-nos progressivamente do mundo lá de fora. Os nossos cuidadores bem tentam, só que não conseguem disfarçar a dor que os domina e o medo que os comanda.

18 de maio de 2020

 

Hoje aparecemos nas notícias. Para mim, o mais importante foi a razão que nos levou a sermos protagonistas da estória do dia. Através de uma plataforma elevatória, o lar permitiu visitas dos nossos familiares, através do exterior. Eles erguidos pela grua, nós à janela a vê-los pela primeira vez em dois meses de clausura. Um de cada vez, até que chegou a minha vez, a vez da minha neta. Mal podia conter a emoção, eu que já tanto vivi, e tantas intempéries enfrentei, ali estava quase sem conseguir respirar por rever a minha querida Mariana. Tenho a perfeita noção de que não dissemos nada muito eloquente nem cinematográfico. Essas conversas mais intensas e retrospetivas, temo-las mantido ao telefone. Hoje foi sobretudo a comoção dos sentidos, de percecionar o brilho dos seus olhos, de ouvir a sua voz real e próxima, de sentir o aroma do seu perfume. Apesar do sorriso escondido pelo pedaço de pano e das palavras trôpegas pela pressão da presença dos jornalistas. Faltou-me apenas a mão na mão, a mão no rosto, o abraço. Faltou-me muito, afinal.

1 de julho de 2020

 

A minha neta entrou. Apesar da distância social imposta pelos novos ditames, senti-a mais perto do que nunca. A saudade de a ter assim, mais perto, multiplica sentimentos, intensifica emoções, desdobra ternuras. Contou-me entusiasmada os progressos na carreira, os avanços no namoro, as aventuras do mundo real, que segue lá fora. Não lhe contei as agruras da solidão, o pavor do desconhecido, o terror da morte antecipada. Reservei-lhe palavras de incentivo, convicção e confiança. Não seria justo tornar-me na sombra da sua luz, fazer de poeta trágico a carpir amarguras, confessar-lhe os reais anseios dos meus dias. Não foi falsidade de escritora dissimulada, foi poesia de nascer do sol na primavera. No livro do futuro, guardo para as entrelinhas a mágoa e enceto parágrafos de esperança.

1 de agosto de 2020

 

Saí. O sol, o sal, a suavidade da areia, o som do mar. Pés agora enrugados revivem tempos de outrora, felizes e ágeis na corrida, atrás das crias. Hoje escuto as gargalhadas das crianças dos outros e recordo as das minhas. Éramos tão felizes! Nem sabíamos o quanto, porque nunca nos tínhamos imaginado confinados, isolados, coartados na nossa liberdade, por uma doença que ameaça a nossa humanidade.

30 de setembro de 2020

 

Vemos nas notícias que os surtos em lares são o pão nosso de cada um destes terríveis dias. Idosos hospitalizados e a morrer protagonizam este drama que alguns incautos apelidam de “nova normalidade”. O que há de normal na morte em solidão? Onde está a normalidade neste flagelo que nos roubou a alegria de viver e nos impôs o medo do toque, da proximidade, do abraço? Não me conformo com a ideia de que o meu fim possa assumir estes contornos, que a minha partida possa ser um número para as estatísticas que diariamente desfilam nos ecrãs de televisão, que a minha morte possa vir a ser mais uma de muitas sem direito a um funeral condigno… Nesta luta solitária pela sobrevivência, foco-me agora em não perder a esperança. Tem de haver amanhã, tem de haver, tem…

5 de outubro de 2020

 

Rejubilo. Irradio. Renasço. A minha neta anunciou-me a sua última decisão. Vai aderir ao regime de teletrabalho e levar-me para sua casa, cuidar-me e proteger-me deste desvario, não sei se de Deus, dos Deuses, do Homem ou do Mundo. Salvar-me deste

abismo de frieza em que o lar residencial mergulhou, socorrer-me desta desgraça anunciada sobre o nosso futuro, acolher-me neste presente miserável em que nos condenaram a viver. Feliz! Feliz me confesso pela segunda oportunidade para continuar a viver, pela amnistia desta pena de tristeza perpétua, pelo potencial regresso dos sorrisos em plenitude.

30 de outubro de 2020

 

Tão depressa sonhava, ainda mais depressa os sonhos se suspendiam. Tão depressa não rumarei ao desejado porto de abrigo. O famigerado surto bateu-nos à porta, mesmo sem licença entrou-nos por corredores e escadarias, e roubou-nos de vez os sorrisos. O silêncio paira como ave de rapina à espera do último suspiro. Houve quem rumasse aos cuidados intensivos. Alguns já não vão regressar. Este tal de novo coronavírus é tão feio de aparência como de consequência. É o fim do mundo como o conhecemos, já dizia a música que o meu filho ouvia na juventude. É uma machadada na árvore da minha esperança. Espero que não seja a final.

7 de novembro de 2020

 

Entrei oficialmente para as estatísticas. Custa-me respirar ainda mais sabendo que serão algumas das últimas inspirações, algumas das derradeiras expirações. Sinto o corpo a desligar-se peça a peça, cada pulsação soa já a despedida. Vivi muito e não deixei muito por contar. A minha escrita sobreviver-me-á, tal como o fado perdura após Amália e A Persistência da Memória depois de Dali. Este último pergaminho, o diário da minha pandemia, ajudará a minha neta a conformar-se e a reaprender a viver sem mim por perto. Neste adeus, dirijo-me a ti, minha doce Mariana. A orfandade precoce levou-te a projetar em mim todos os afetos do teu pequenino coração e assim cresceram ao mesmo ritmo, coração e afetos. Saberás que fui feliz e cumpri quase todos os sonhos. Saberás que parti feliz, por saber que iríamos ser ainda mais felizes em breve. Só não fomos a tempo, minha querida. O teu luto precisa agora de tempo. Quase no fim, sei que o tempo me deu a mim quase tudo e que a ti, minha Mariana, também te trará a serenidade e o futuro. Morri na solidão, mas não sozinha. Tive-te sempre comigo e comigo te levo. Não sobrevivi à Covid-19, mas o meu amor por ti nunca sucumbirá, nestas palavras. Mantém-te firme, Mariana, sobrevive agora, para depois viveres tudo o que te roubaram, tudo o que nos tiraram, tudo o que…

TURVO - SÉRGIO MORAIS

2º PRÉMIO 4º ESCALÃO

Memória de Elefante

 

Pegaram-me pela mão e levaram-me até uma sala branca com uma data de cadeiras vazias. Disseram que tinha de esperar um bocado, não muito, e que me viriam falar mal pudessem. Não sabia por que esperava, mas sentei-me numa das cadeiras e tentei pensar em todas as razões pelas quais me teriam chamado ali para começar - que não se arranca uma pessoa da cama por meras trivialidades.

Pensei que pudesse ter dito alguma coisa de mau gosto que tivesse chateado alguém abastado. Sim, porque nem toda a gente tem salas de espera para falar com quem os aborrece de uma maneira ordeira e burocrática. Mas não costumo sair de casa e, quando o faço, acho-me no direito de pouco falar. Custa-me comunicar. Talvez por achar que os outros levam vidas mais interessantes que eu, que me cinjo a dizer bacoquices sobre o que me passa pela cabeça. Não sou o tipo de pessoa que se senta na mesa do café e conta com grande detalhe a sua última aventura com o obstinado trabalhador do talho, porque pouco interajo com o que conheço e ele sempre me pareceu simpático. De qualquer das formas é interessante ouvir a história de alguém que encontrou um merceeiro empertigado, ou um advogado deprimido, ou um poeta contente; logo costumo deixar os discursos para quem se atira de cabeça para as aventuras do quotidiano. Sendo assim, achei que não corria o risco de ter insultado um magnata, mas ficava com a ideia anotada para futura análise.

Talvez fosse receber um prémio. Era bom que assim fosse! Porém, duvidava bastante dessa realidade. Poucos prémios recebi na vida, e a grande maioria apenas reiteravam aquilo que já sabia: que estive lá, que passei por aquilo e não caí para o lado. Nunca percebi bem a utilidade dessas recompensas, mas a verdade é que me fazem relembrar alguns bons e maus momentos. É possível que seja essa a única benesse.

Decidi olhar em volta da sala. Afinal as paredes não eram brancas, mas sim casca-de-ovo. Não que isso fosse mudar alguma coisa, mas quando há demasiado tempo em mãos tendo a reparar nos pequenos pormenores, estejam eles à minha frente ou no pensamento. Por exemplo, as cadeiras tinham todas o mesmo tom de azul, talvez com o intuito de acalmar quem se senta na sala, visto que o azul é uma cor que transmite calma e paz. De nada me valia a tonalidade das cadeiras; o meu problema continuava incógnito e isso era a única coisa que interessava naquele momento. Teria deixado a luz do quarto ligada? Mais uma vez, não importava. Ou importava um bocado, que as contas são difíceis de pagar e o dinheiro não cresce das árvores (que eu saiba). Ou cresce? Nada fazia sentido. Pouco faz sentido. Nunca fiz sentido.

Achei que fosse altura de ponderar se estaria a morrer. Aliás, achei que fosse altura de ponderar se estaria a morrer mais rápido do que seria de esperar. Mas, em boa verdade, quem dita se estou a morrer depressa demais? No meu entendimento, tudo é quando devia ser; nunca antes ou depois. “O que for, quando for, é que será o que é”, já dizia Pessoa. Era possível que os meus pulmões, finalmente, tivessem decidido colapsar por mau tratamento. Porém, se assim fosse, com

certeza me estaria a sentir pior, não conseguindo mesmo falar comigo próprio. Não. Estava a morrer normalmente. Como um bom filho da terra; pé ante pé à procura razões para viver de sorriso na cara e a tentar não pensar que, no fim, à terra voltarei. Ou ao mar. Sei lá para onde vou quando morrer.

Percebi, tardiamente, que não haviam relógios. Que o tempo (se realmente passa) andava sem consideração por mim, tal como a maior parte das coisas andam. Se calhar isto não tinha nada a ver comigo. Poderia ser algum tipo de estudo para o qual não me alistei, onde me colocariam uma série de questões sobre assuntos, à primeira vista, desnecessariamente parvos. Isso não seria ideal, pois nunca me dei bem com demasiadas perguntas sem sentido; como na escola, onde passava mais tempo a pensar em que é que a maior parte das coisas me iria ajudar ao invés de ser um bom estudante.

 

De nada adiantava querer saber. Apenas ficava mais irritado, curioso e perplexo pelo que me rodeava. Achei por bem agir como quando me levanto da cama com sangue seco na almofada e encolher os ombros enquanto sussurro para mim mesmo que um dia ainda deixo de ver o que vejo. Por isso esperei, como todo o mundo espera por alguma coisa. Esperei como se a minha vida dependesse disso, com uma espetacularidade perene que faria inveja às estátuas das praças da cidade. Esperei porque um gajo tem de esperar não é? E assim se passam os dias. Uma história do caraças, não é? Raios me partam mais a espera. Espera pelas pessoas, espera pelas batatas, espera que te respondam do trabalho a dizer que estás despedido, espera pelo amor, pela vida, pela morte… Espera mais um bocadinho! Espera mais um bocadinho, pá! Esperas tanto que um dia percebes que passaste mais tempo a esperar que a viver. Espera aí!

Fiz de tudo para me acalmar. No final de contas, não existe remédio para o tempo. Lembrei- me das viagens eternas com a minha família para o Algarve. Percebi aí que houve uma altura em que sabia ter paciência. Apenas precisava daquelas quatro outras pessoas num carro, pouca circulação de ar e um disco dos êxitos do Carlos Paião. Cantava que Eu Não Sou Poeta enquanto passávamos por Pombal, e quando dava por mim já estava a olhar para as paisagens de Santarém e a pensar na letra da Lá Longe Senhora. Era realmente mais fácil ser-se um miúdo no meio das irmãs que lhe beliscam as bochechas até à exaustão. Decidi ter a paciência do miúdo do carro. Esperei, sentado de várias maneiras, em várias cadeiras. Esperei de pé e houve até alturas em que me deitei nos azulejos frios daquela sala. Esperei anos.

 

Quando dei por mim mal me mexia. Os joelhos tremiam pelo tempo que havia passado. Uma rapariga com óculos garrafais e cabelo desgrenhado veio ter comigo para me dizer que tinha cumprido o meu propósito. Mas qual propósito? No entanto, de que importava saber agora que já tanto tempo tinha passado?

Saí daquela sala que quase foi uma casa, para um corredor onde notei que caminhava curvado. Onde notei que o meu cabelo tinha caído e que me faltavam dentes. Abri a porta para ver o dia claro - aquele “claro” que faz uma pessoa ficar rabugenta, de tão claro que está. Do lado oposto da rua estava um jardim e mesmo que me parecesse uma eternidade atravessar aquela rua, quis-me sentar num banco vermelho que lá estava, debaixo de um chorão muito bem tratado, por sinal. Conseguia ouvir os pássaros – já me tinha esquecido dos pássaros. Conseguia ver o fontanário com gatos lá deitados a aproveitar o sol. Ao meu lado, três velhotes, como eu, falavam da guerra e das mulheres. Conversavam sobre a bola, sobre o mar, sobre os filhos e os netos. Tinham histórias para contar, de aventuras além fronteiras. Histórias de chorar, maioritariamente; mas algumas tinham a sua piada.

Entrelacei os dedos e cantarolei alguma coisa – não me lembro qual era “a coisa”. Pensei que não tinha histórias para contar sobre amores perdidos em Buenos Aires e fiquei tristonho. Queria ter tido desses amores, ou daqueles sustos de morte que nos dão para escrever livros sobre como viver. Contentava-me com uma viagem de camioneta ao sul de Espanha. Mas só podia contar sobre como soube esperar. Achei engraçado pensar que, mesmo tendo feito tão pouca coisa, não me conseguia lembrar de tudo; ou seja, nunca teria memória de elefante. Achei que tinha, no entanto, memórias de um elefante: mas não de um daqueles elefantes livres e bonitos – daqueles do Zoo, que estão ali parados e longe de casa.

MANUEL LUÍS CORREIA

3º PRÉMIO 4º ESCALÃO

Uma História do Cabo da Guarda

 

Num certo dia duma data incerta, acertadamente e não para fazer nada, fomos assistir a um jogo de futebol em que o AFC ia defender as suas cores e a sua bandeira. E, pela certa, somar outra retumbante vitória… moral.

Os assistentes acompanhavam o desafio com gritos apropriados, mas geralmente pouco próprios, atendendo a que entre os jogadores dos “trevos” se encontrava um Evangelista, grande pregador de sustos na defesa oposta. Bem alinhados e apoiados na vedação de madeira, os adeptos não corriam o risco de pisar a linha lateral, ou seja, o risco ao lado do piso careca que um ajudante de campo, vergado ao peso do balde, havia traçado com alguma cal pela calma da manhã.

O entusiasmo da claque durante o prélio era tão elevado que a levava a sulcar profundamente o chão debaixo dos pés, sempre que um jogador executava ou errava um pontapé. No final do match, serenados todos os ânimos, se contássemos os sulcos em volta do campo, saberíamos a intensidade dos dribles e ataques do nosso team, o número de corners, as defesas do keeper, as fífias dos backs e halfs, ou se os liners nos tinham roubado nos off sides. Tudo isto com um fair play muito precário e numa linguagem importada, para inglês ver, mas a malta não se importava… e também não sabia outra.

Entre a assistência e as linhas laterais, duas forças mantinham uma apertada vigilância: o Garrafão (alcunha do massagista), a correr com o mesmo em punho, contendo o líquido leitoso para recuperar algum jogador saído à força por alguma entrada mais dura e, com uma boa esfrega, fazê-lo voltar à refrega; a outra força, com o dobro dos efetivos e mais poder de fogo, constituída por dois agentes da GNR, armados de arma a tiracolo e pouca paciência, destinada a manter os assistentes em respeito e aplicar uma massagem especial e mais marcante, a quem ousasse passar das marcas.

Naquele referido dia daquela data incerta, um dos jogadores que havia por ali aos pontapés e às caneladas, ou metendo os pés pelas mãos, aplicou um chuto no couro, inchado e pesado com a água absorvida de alguns colegas que andavam em campo só a meter água, mas com tão nefasta, violenta e desalinhada pontaria, que lhe confere uma rota de colisão com o agente de autoridade que patrulhava a linha lateral. O autor do disparo acidental, que até àquele minuto fatídico não tinha dado uma para a caixa, atinge o guarda em plena caixa torácica, com tanta conta, peso e medida, que o faz perder o

aprumo e consciência, estendendo-o ao comprido, mais branco que a cal das riscas, perante as conscientes e atónitas torcidas. O jogo foi de imediato interrompido, gerando- se ali um berbicacho dos diabos.

Na linha oposta, na porta da Moita (correspondente à porta da maratona), o comandante da guarda vigiava pachorrentamente o pessoal da sua zona e, pelo rabo do olho (e não vice-versa), controlava as ovelhas que pastavam próximo, não fosse uma ovelha ronhosa invadir o terreno de jogo. Dando conta dum imenso burburinho e cheirando-lhe já a esturro, ainda por cima com uma baixa para metade das suas forças, o cabo da guarda, de pachorra perdida e não indo à bola com os jogadores nem qualquer outro gentio, atravessa o pelado pelo risco ao meio, veloz como uma bala e apontando para tudo o que estava em frente, determinado em auxiliar o colega a reentrar no ativo e a dar cabo do canastro a qualquer um, de preferência o culpado, fazendo-o pagar pela medida grossa. Para bem de todos, a vítima, que não dizia coisa com coisa mas não sofrera danos de grande monta, recuperou a fala com rapidez e muito estoicismo, retomando, num ápice, a sua verticalidade inicial.

Estando já refeito todo o destacamento policial (cabo e soldado), o comandante, com ar de poucos amigos, aproveitou a oportunidade soberana para matar dois coelhos duma vezada e sem gastar um tirinho: mostrar a sua autoridade e elaborar um valente relatório da ocorrência, para melhorar a sua folha de serviço tão pobrezinha ainda. Não havia multas de trânsito, pois os carros podiam contar-se pelos dedos, e os roubos cometiam-se todos a coberto do escuro da noite ou fora de mão. Para alcançar os seus fins, decidiu deter o autor daquele atentado à ordem pública, por jogo sujo e ruína prematura de fardamento oficial… e cavalheiro.

Interrogados os suspeitos do costume, constantes da lista secreta superiormente elaborada, a bem da nação e ouvidas as testemunhas ocasionais, o comandante caiu em si, vencendo daquela vez a voz da razão. E aquilo que parecia uma cobarde agressão, pessoal e intransmissível, foi arquivado e rotulado como mais um caso de bola perdida.

Moral da história: o pessoal não ganhou para o susto, o Anadia ganhou no campo da luta, sem tremer e sem temer, e houve festa da rija para lá do render da guarda.

E digo que ganhou… com toda a autoridade!

ANA BEATRIZ BERNARDO

MENÇÃO HONROSA 4º ESCALÃO

Carta de Despedida

 

Venho despedir-me de ti. Não era capaz de me ir embora sem te dizer um adeus. Olhei para ti pela primeira vez quando tinha apenas 6 anos. A luz que refletias,

os espelhos do chão ao teto maravilharam-me. Olhava para as meninas com as pequenas saias e os seus sapatinhos bonitos cor de rosa. Tentava imitá-las enquanto a minha mãe falava com a senhora mais velha que ia ser a minha professora. Lembro-me tão bem do momento em que me deixaram juntar ao grupo: parecia que me tinham aberto a porta de uma jaula que nem sequer sabia que me segurava.

Lembro-me da primeira aula e do primeiro plié que tentei: saiu tão torto que ia quase caindo. As outras meninas riram-se de mim, mas eu sabia que ia conseguir. Subi devagarinho apoiando as mãos no chão, levantei a minha cabeça como que a ignorar tudo o que estavam a dizer e tentei uma e outra vez até me parecer perfeito. Desde o início que sempre fui assim.

Estou com saudades de ti sabias? Mesmo agora, sentada de costas para o espelho grande, a olhar para esta sala, sinto-me com saudades. Saber que posso nunca mais dançar, exprimir-me daquela maneira em frente às pessoas. Elas compreendiam-me mesmo sem falar, elas sabiam o que é que eu estava a fazer e quão boa era. Aquelas pessoas conheciam o meu verdadeiro eu. Sabiam quem eu era, sem ter de o esconder.

Apoiavam-me, suportavam-me nos momentos maus e saltavam e gritavam comigo nos momentos bons. As minhas pessoas. Mesmo não falando a mesma língua ou estando a centenas de quilómetros, elas eram as minhas pessoas: as que falavam o idioma da dança, os dançarinos de coração, todos os que me compreendiam sem eu ter de dizer uma palavra.

Sinto-me triste e melancólica. Já sabia que isto mais tarde ou mais cedo ia acontecer, mas agora estou mesmo a cortar o cordão umbilical. Acho sempre que estou pronta mas no momento em que pego na tesoura, algo me prende. Talvez seja o medo, talvez a dor de não ter nada como garantido, talvez o facto de ter o mundo todo à minha frente e de não saber por onde começar. Mas o que é certo é que dói. E isso faz com que volte a arrumar a tesoura na gaveta e esquecer esse assunto durante mais um tempo.

Mas agora não dá. Este é o último momento que quero prolongar para sempre, para nunca ter de fazer essa escolha.

Deixo a minha minha mala de lado e levanto-me devagarinho. Vejo a sala a diminuir à medida que as minhas pernas se esticam. Dou um primeiro passo em direção ao teu centro e olho à minha volta; consigo ver tudo quase como se fosse um filme: todos os acontecimentos a ocorrerem aqui à minha volta. O sangue e o suor que larguei neste sítio, o esforço de anos, a determinação, o caminho para a perfeição, os momentos piores e os momentos melhores: conseguia ver tudo. Consigo ver-me nos diferentes cantos a aquecer, a treinar e a praticar as minhas danças. Quero imitá-las: fazer tudo uma última vez.

Começo por me meter em posição. Sei que este é o último momento, portanto esforço-me o mais possível; sei que esta é a última vez que me vais ver. Levanto a mão direita com a maior delicadeza possível. Imagino a música na minha cabeça e o público lentamente a aparecer à minha volta. Todas as minhas colegas, todas as pessoas que pensava perdidas estão lá a aplaudir e a gritar. Dou um pequeno sorriso antes de me concentrar. Eu sei que consigo, eu sei que sou capaz, eu sei que estou preparada.

A música imaginada por mim começa a tocar e começo por descer a mão lentamente e coloco-me em pontas. Dói manter-me assim, mas não vacilo. O próximo tempo é aquele passo complicado mas faço-o na perfeição. Os meus braços movimentam-se ganhando cada vez mais graciosidade. O meu corpo entra em piloto automático: os meus braços e as minhas pernas começam a ganhar balanço e fazer as coisas maravilhosas que fazia. Só consigo é aceitar e sentir tudo o que está a acontecer. Parece que sou apenas mais uma pessoa na plateia a ver-me dançar.

Olho para mim: olho para o que cresci e o que aprendi durante todo este tempo. Em frações de segundos, sinto a força que faço nos meus pés para manter as posições, sinto os meus músculos a permanecerem nas paragens e sinto a respiração a manter-se como se fosse algo que fizesse todos os dias. Consigo ver a minha treinadora. Ela olha para mim com lágrimas nos olhos, como se tivesse acabado uma obra de arte e está a observar o resultado. Sei que está orgulhosa, eu conheço-a. Conheço-a tão bem que chego a saber o que vai dizer mesmo antes de lhe sair da boca. Estico-me bem nesta figura mais difícil antes de ela ter tempo de dizer algo.

A música é hipnotizante e quase que não pisco os olhos enquanto o eu que está a dançar acabar o seu momento. Todo o corpo parece estar em harmonia, tanto em pontas quanto nos saltos: desde os dedos das mãos que o corpo parece estar coordenado quase por magia. Mas eu sei que não foi isso: eu sei o tempo que perdi, os gritos que ouvi, as vezes que caí até tudo estar perfeito, até tudo estar no seu lugar. Só eu sei o esforço que estão aqui nestes três, quatros minutos de música. Só eu sei o que perdi, o que chorei e o que sofri até chegar aqui. Mas valeu tudo a pena.

Valeu e eu não posso mentir. Não posso mentir que faltar a saídas à noite ou jantares com amigos não me deixavam satisfeita; não posso mentir que a desculpa que mais usava era “tenho treino”; não posso mentir que contava o tempo para voltar para ti. Que tu eras a minha paixão e a minha vida. Que este lugar me tornava completa. Que só pensava em ti.

Mas agora já não é verdade. Faço a última pose da dança, pouco antes de a música acabar. Desço os braços lentamente enquanto olho para o meu público que vai lentamente desaparecendo. Sinto o meu corpo a ficar cansado e os meus olhos a ficarem molhados. Foste uma grande parte de mim. E vais sempre ser. Mas eu preciso de crescer. Eu preciso de mudar de rumo e preciso de saber quem sou fora de ti.

Deu dois ou três passos em direção ao espelho grande e pego na minha mala. Com a ajuda da minha mão direita, meto a alça no ombro e limpo as lágrimas, que entretanto, caíram dos meus olhos. Olho uma última vez para ti. Não só para o espelho ou a sala em si, mas para os cantinhos escondidos nos quais gostava de brincar e de me esconder quando a minha mãe chegava para me vir buscar. Sigo em direção à porta.

Eu gosto de ti. Isso nunca teve em questão. Mas tu sabes e eu sei que eu preciso de algo mais que a dança. Eu preciso de saber para onde vou, eu preciso de saber o que fazer agora e tu és e sempre foste um porto seguro. Abro a porta branca lentamente e olho uma última vez antes de sair.

Eu vou lembrar-me sempre de ti. Adeus e um até já para sempre.