1ª edição

2018/19

CONCURSO LITERÁRIO

PROFESSORA

ROSINDA DE OLIVEIRA

CIRA REMINI

VENCEDOR DO PRIMEIRO PRÉMIO

4º ESCALÃO

OS VENCEDORES

1º ESCALÃO

1º PRÉMIO . DUARTE MENDES, O melhor Natal de sempre

2º PRÉMIO . BEATRIZ PLISHKA, A viagem que salvou o Natal

3º ESCALÃO

MENÇÃO HONROSA . DAVID MIRANDA, Um dia luminosamente obscuro

4º ESCALÃO

1º PRÉMIO . CIRA REMINI, Espaço

2º PRÉMIO . BELINO COSTA, Uma questão de batatas

3º PRÉMIO . MARIA MIGUEL BILOBA, Para sempre dezembro

MENÇÃO HONROSA . CARLOS VINHAL SILVA, O jovem que não quer fugir da morte

OS TEXTOS PREMIADOS

DUARTE MENDES

1º PRÉMIO . 1º ESCALÃO 

 

O melhor Natal de sempre


Era véspera de Natal, eu estava tão ansioso com a chegada do Pai Natal! Quase não conseguia dormir (o que era habitual acontecer todos os anos)!
Quando finalmente adormeci, ouvi um estrondo na sala, levantei-me e fui ver o que era. O barulho ia crescendo e crescendo… até que vi um homem vestido de vermelho, com longas barbas brancas, um barrete, rodeado de pequenas criaturas com orelhas enormes! Percebi logo que era o Pai Natal e os seus duendes!
Segui o Pai Natal até ao telhado, agarrei num duende e prendi-o num armário, troquei as roupas dele pelas minhas e acompanhei o Pai Natal. Como estava escuro o Pai Natal não conseguiu perceber que eu era uma criança. O seu trenó voava alto e comecei a ficar enjoado com as alturas, mas lá fui eu…
Por todas as casas por onde passei havia presentes tão bons que não resisti e levei-os comigo. Quando, finalmente, cheguei à sede dos presentes, nem queria acreditar no que via, eram milhões de duendes a fazerem milhões de presentes! Eu fiquei tão espantado que o Pai Natal descobriu que eu era uma criança e não um duende. Então, ele colocou-me numa sala que tinha uma placa a dizer “Intrusos”.
Quando lá entrei, estavam imensas crianças escondidas no escuro que quase nem se viam. Eu fiquei triste e com medo daquele sítio. Mas, de repente, apareceu uma criança vinda do escuro que me pareceu familiar. Era um amigo meu que tinha desaparecido há cinco anos! Ele reconheceu-me logo que me viu e acalmou-me. Apresentou-me aquelas crianças tristonhas que estavam com ele. Então, planeamos uma fuga. Ainda na sede, na garagem, havia um trenó de emergência, que poderíamos usar para fugir. Assim fizemos. Custou até conseguirmos controlar aquilo, mas lá foi e tudo correu bem.
Depois de voltar para a minha cama, ouvi o barulho de um despertador… Afinal, tinha sido tudo um sonho!
Corri para ver os presentes de Natal e, entre eles, estava um trenó com o Pai Natal em cima que piscava o olho direito e dizia «Feliz Natal», enquanto abanava a mão.

 

BEATRIZ PLISHKA

2º PRÉMIO . 1º ESCALÃO 


Uma viagem que salvou o Natal


Tudo começou num Natal. As pessoas não estavam a receber presentes! Tudo estava sem graça e não havia sinal do Pai Natal!
Um grupo de quatro amigos decidiram ir ao Polo Norte para ver o que estava a acontecer. Nesse grupo, a Cindy, uma menina de cabelos loiros, que andava sempre com duas tranças e muito meiga, trazia sempre um caderno, várias esferográficas, pois achava que seria necessário; a Angelina, uma menina tímida de cabelos castanhos, que adorava comida, levava fruta para a sua viagem; o João, que era muito trapalhão, acabou por não levar nada e, o Luís, um rapaz muito brincalhão levava um presente feito pelos quatro amigos para oferecer ao Pai Natal.
Para que, a partir do Polo Norte, pudessem chegar a Christmas Town, eles iriam precisar de um mapa. Mas, quando chegaram ao Polo Norte, aperceberam-se de que o João que tinha ficado responsável pelo mapa, não o trouxera, fazendo com que se perdessem e ficassem com pouco tempo para salvarem o Natal. Entretanto, tiveram a sorte de a Cindy avistar uma vila, Elfs Village, onde moravam os elfos que trabalhavam na fábrica do Pai Natal. Assim, tiveram a oportunidade de perguntarem aos elfos onde se situava Christmas Town.
Lá chegados, dirigiram-se ao Pai Natal e o Luís perguntou:
- Senhor Pai Natal, o que aconteceu ao Natal? Ninguém recebeu as prendas e o Natal está sem graça!
- Caro jovem, o Natal está assim porque estou triste, ninguém comemora o Natal com a família, só querem saber dos presentes, ninguém enfeita as casas e eu sou o único que não recebe presentes! – respondeu o Pai Natal com um ar de tristeza.
- Este Natal, o senhor receberá uma prenda! – exclamou confiante a Angelina, enquanto o Luís entregava o presente.
- Faremos com que a partir de hoje o Natal seja mais feliz! – disseram todos em sintonia.
- Muito obrigado, crianças! – agradeceu o Pai Natal.
As crianças, para o alegrarem, decidiram elaborar cartazes com decorações de Natal, e um deles tinha o Pai Natal a comer bolachas e a beber leite. Espalharam-nos pelas ruas da cidade. As pessoas foram transmitindo o conteúdo dos cartazes aos
amigos. Deste modo, todos começaram a enfeitar as suas casas nesta época do ano e a colocar bolachas e leite em cima da mesa para o Pai Natal.
O Natal não é só receber presentes! O Natal comemora o nascimento de Jesus que nos ensinou o Amor! Comemore o Natal com a sua família, seja gentil e não dê tanto valor aos presentes! Dê valor ao Natal!
Beatriz Maria Coelho Plishka

DAVID MIRANDA

MENÇÃO HONROSA 2º ESCALÃO

 

Um dia luminosamente obscuro


Haverá no mundo uma aldeia que surpreendida consiga surpreender? Aldeia provinciana no meio de uma emboscada capaz de resistir às grandes forças ordenadas por um Pequeno Imperador! Oh, se há! Terra antiga de nome Mamarrosa, a tal sobreviveu, com coragem ultrapassou… Digo isto, não por ter assistido, pois não lá estava nem poderia estar. Mas é o que o povo diz. E se assim o diz, mais ou menos ponto, assim o é. Falo não por falar, mas por orgulho de nascido e criado nesta outrora pequena aldeia poder habitar. Nobre aldeia que, como um rei, tem uma sofisticada coroa. Coroa esta porém diferente da real. Uma esplêndida coroa de pedra em homenagem a S. Simão, o qual tem uma pequena, porém magnífica, estátua sobre o portal, estátua esta três séculos mais antiga que a própria construção!
Esta aldeia cuja aventura pretendo contar era, no século romântico, uma pobre provinciana, destemida, confiante, sonhadora… A sua vida costumava ser nada mais que as outras. O povo nada mais era que toda a sua população. Passava os ensolarados dias nas suas terras, nos seus cultivos… Ao domingo, não faltava a missa na nobre coroa de pedra talhada. Nos dias de funeral, o povo reunia-se no adro deste palácio cristão, como na época se fazia. Nestas reuniões compareciam todas as figuras da aldeia. O Pároco, figura importante na aldeia, era o centro das confissões no qual todos confiavam, tendo em si todas as esperanças que se têm no mensageiro de Deus. A Beata, que todos os dias ia à Igreja ver a condição das flores, tinha especial proximidade com o sacerdote. Chorava os falecidos nestes dias, fosse próxima ou não dos mesmos. Com «próxima» quero dizer «amiga», visto que todos eram próximos como se é numa pequena aldeia. O Professor era, a par com o Pároco, uma figura de nome, um ser quase inalcançável pois poucos frequentavam a escola. Estes poucos viriam a ser os burgueses abastados. Os restantes, deixariam aos herdeiros a pobreza do pobre povo. Assim eram os dias desta pequena população.
Certo dia, em julho de 1810, uma importante notícia espalha-se como um rastilho, na Mamarrosa. Esta mensagem recebida pelo Pároco era, nada mais, nada menos, o aviso de que o pequeno imperador gaulês, Napoleão Bonaparte, tinha, pela terceira vez, ordenado a invasão da Terra Lusitana. Desta vez, as tropas dirigiam-se para a região pelo que o alarido foi levantado. Neste mesmo dia corre também uma outra novidade: o
Professor tinha pedido a Burguesa em casamento. Esta era um símbolo de poder na aldeia, habitava uma grande casa na qual serviam quatro criados.
Durante dois meses não se ouviu falar na invasão gaulesa. Os preparativos para o casamento do Professor duraram estes mesmos dois meses. Em setembro do mesmo ano, num domingo, celebrou-se esta cerimónia. O povo e a burguesia mamarrosenses foram convidados para este evento e, como seria de esperar, nenhum faltou. Organizada pela Beata, a eucaristia daquele dia foi sumptuosa. Arranjos florais impregnados de rosas, jarrões de porcelana e de prata embelezavam o interior da magnífica coroa de pedra.
Na quinta-feira anterior as forças napoleónicas travavam a famosa Batalha do Bussaco. Derrotado pela resistência anglo-lusa, o líder das tropas, Marechal Massena, decide deslocar as suas tropas para zonas mais baixas. Através dos seus binóculos observa a bela aldeia da Mamarrosa. Decide então ali se alojar para preparar uma nova batalha. Para tal, envia uma centena de soldados para a povoação de modo a controlá-la com o intuito de enviar mais tarde todos os restantes. Ao chegar à aldeia, este batalhão de franceses depara-se então com o casamento do Professor e da Burguesa. Todos os quase dois milhares de habitantes da aldeia se encontravam no interior ou na periferia da igreja. Estando já a noiva no altar, ouvem-se tiros. Os gauleses tentavam dispersar a multidão. No entanto, o povo mamarrosense não se demoveu. De imediato pegaram no que tinham, fossem as enxadas dos lavradores ou as armas dos burgueses. A eucaristia parou. O padre pediu de imediato à Beata para trancar o sumptuoso portal do templo. Todos os que se encontravam no interior da igreja, ali ficaram trancados. A Burguesa, em pânico, desmaiou nos braços do seu noivo. Todas as quase duzentas pessoas que estavam na igreja tentaram acudir-se umas às outras. No exterior, o povo lutava incansavelmente pela defesa da aldeia e, acima de tudo, da sua magnífica coroa de pedra. O capitão do batalhão, Pierre Merle, pediu então reforços enviando três soldados a cavalo com urgência para o acampamento de Massena.
Ao chegarem, o marechal vê novamente pelos seus binóculos a aldeia. Desta vez, caem-lhe das mãos… Viu, na torre da igreja, canhões. Pensando que a aldeia estivesse fortemente armada, Massena mudou de ideias. Já não queria tomar controlo da Mamarrosa. Mal sabia este pobre francês que os canhões que viu eram nada mais, nada menos, que ornamentos de pedra da torre.
Na aldeia, meia dúzia de gauleses conseguem penetrar na multidão e chegar junto à entrada da igreja. Ali se deitou uma dúzia de mulheres impedindo a entrada das forças do mal no seu templo sagrado. Não querendo deixar mortes, os soldados contornam então a igreja encontrando uma porta lateral, a qual conseguiram arrombar. Entraram então na igreja, cheia de gente revoltada para com eles. Murros e pontapés não demoveram os soldados. Para calar a multidão, um dos seis franceses dispara. Inevitavelmente houve feridos. Um deles, a Burguesa, a qual foi atingida no peito mesmo estando num sono profundo. O Pároco, o Professor e a Beata, no altar, rezavam a São Simão. Entretanto os sinos começaram autonomamente a tocar a rebate. Intensificando-se o som, a própria igreja começou a vibrar. Sobre um dos túmulos dos antigos sacerdotes da aldeia, os franceses sentiram o chão rachar. Caíram então sobre um corpo decomposto. Com tamanha barulheira até o cadáver se mexeu. Em pânico, os franceses fugiram a sete pés da igreja gritando «Os mortos estão contra nós. A aldeia está protegida pelo Demónio. Fugi! Fugi, nobres companheiros!». Saíram todos os franceses da Mamarrosa em direção ao acampamento de Massena. Ali decidiram fugir da região, pela estrada da Mealhada, em direção a sul.
Na Mamarrosa sentia-se alívio e desespero. Alívio pela partida dos soldados. Desespero pelos feridos. Ali festejaram, ali choraram… O Professor estava também desesperado. Mas, contrariamente, aos restantes, pela partida. Pela partida da sua noiva…

 

CIRA REMINI

1º PRÉMIO . 4º ESCALÃO

 

Espaço
 

Para ti, agora que começo a entender.
 

Como pegar na voz de um peixe

Manoel de Barros


Vejo sobretudo as ondas. Mais que uma vez sinto-me pequeno sob este movimento crescente: agora, sem querer, descubro como funciona: trata-se de uma lâmpada de lava cujas formações, livres e autónomas, representam algo na minha vida, situações, problemas, propósitos, recordações, sobretudo recordações de qualquer tipo, inclusive falsas experiencias, pensamentos em forma de círculos; posso, agora, apesar dos condicionantes, da escuridão e da assimetria, desenhar cada uma destas manchas como se fossem bactérias analisadas no microscópio da escola, observar cada movimento e presenciar, em primeira mão, como absorbem a minha vida.
Mais ou menos assim: no meu quarto, agora, à noite, enquanto todos dormem, enquanto não há luz, estou a pensar em tudo, no dinheiro, no amor, no dia seguinte, no anterior, em todo o caso a pensar no universo, porque (descubro, agora) pensar é como uma fotografiazinha do céu gravada no interior da cabeça numa noite do mês de Novembro de 2018; basta ver, aqui, neste momento, o dia em que a minha irmã Y. foi atropelada por uma moto: Y. numa esquina, perdida na cidade, na rua, no centro, envolta em pensamentos, recordações, ou, como se costuma dizer, absorta, foi, quase de modo inexplicável, atropelada por uma moto, contrariando, assim, a lógica arcaica do movimento e da mecânica: quanto mais repouso, mais pensamento, mais produção, a não ser, claro, que o homem, o condutor da moto, seduzido e levado pelo movimento mais puro, pela velocidade mais ansiada (o pássaro que durante o voo roça a superfície do rio), tenha produzido mais pensamento, o suficiente para gerar um choque de corpos muito mais irrefletido que o contacto dos meus pés com o chão frio, agora, quando me levanto e saio do quarto e vejo, no final do corredor, encostado à janela do salão, uma figura, alguém, um homem, quiçá mais perdido, porque está fora do seu quarto a estas horas da noite, quando todos dormem, quando todos pensam no dia de amanhã com os olhos fechados, por isso creio que ele não está bem, que está agitado, e além disto, durante a conversa, agora, não sei se as palavras são mediadas: eles, os sons e os significantes, surgem como música de fundo, como acompanhamento, como sonho, e dão, não por acaso, mais sentido a cada sensação, a cada gesto dele, que, contrariamente àquilo que eu pensava quando o vi, fala muito e não deixa espaço, como se tentasse não
pensar: está-me a dizer, aliás, que tem, desde ontem, desde que está só, o propósito de encontrar, seja como for, a distração absoluta, sair e ser mais exterior que a sua própria sombra, a missão, ingénua e contraproducente, de existir mais para deixar de existir; evitar que a sua realidade (segundo ele: o reflexo da lua e das estrelas numa piscina particular) contamine o mundo partilhável, a casa, o prédio, o bairro, os edifícios, as luzes, a cidade.
Agora, aqui, apercebo-me de que se trata de distância e posicionamento: ele atua como se o pensamento e os sentidos não estivessem sincronizados, fala, apoiado no corrimão da janela, contemplando as costas dos prédios, discute sobre algumas pessoas, sobre alguns temas, sobre o quotidiano, sobre pessoas talvez demasiado importantes para ele, e dá exemplos: diz que no outro dia sonhou que recebia uma chamada de O., o seu irmão, o único irmão dele, que vive no estrangeiro, longe, e diz, também, agora, que sentiu, depois de muito tempo, de muitos anos, saudades, que não sabe porquê existe tanta distância: vê-se, entre palavras, a dormir a sesta com O. no carro do pai, vê mangas doces e o muro verde da escola, sente, como se ouvisse pelos olhos, a voz da televisão SONY do quarto antigo, as orações da bisavó, que mais que orações parecem sussurros de recordações, como se cada experiencia se regenerasse e justificasse o passado como único tempo possível, vê-se com O., apesar da posição no espaço de cada um, a partilhar sob a luz da cozinha pedaços de uma memória comum, tudo isto enquanto ele abre a boca e modula, acrescenta, pensa, concorda com algo que nada tem que ver com o momento em que A., a mulher que ele ama, o abandona num dia considerado, pelo menos por ele, normal, liso, tão quotidiano como o movimento dos estores, dos sapatos, dos carros vermelhos.
Ele, mais novo, no quinze de Abril de 2010, quatro semanas depois de conhecer A., na rua, só, sente-se só, quiçá porque não tenha sido boa ideia passar tanto tempo em casa de A. até às tantas horas da noite, até não haver carros nem pessoas na rua, mas apenas capacetes molhados, por isso caminha a avenida com as mãos nos bolsos, com muita precaução, atento a qualquer sombra, não vá ele dar um desgosto às pessoas que dizem gostar dele, e vê como se vai afastando da casa de A., do sofá de A., do vestido de A., cada vez mais, apesar do desejo de ficar aí para sempre, durante todo o tempo, até o sol nascer e entrar pela janela do salão, mas (diz ele, sim?) o melhor seria ficar oculto na escuridão, esticar o agora, aqui, enquanto dialoga, talvez resignado mas consciente da distância para com o mundo, porque o mundo está sempre aí fora e explode e cada
pedaço, maior ou menor, mancha, toca, alcança, e os efeitos crescem como a humidade e as plantas selvagens: ele, não sei por que razão, sente que o interior é mais coercivo do que qualquer exterioridade, como se estar nos sapatos fosse uma conceção do mundo e os seus sapatos fossem um túnel infinito.
E ele sente, observa surpreendido os carros noturnos, as ruas, o vazio, os papéis, como se apenas tivesse a intuição e o seu contacto com cada objeto fosse imediato, vê, agora, sem deixar espaço, no salão, a casa dos avós, o dia do seu vigésimo aniversario, a festa no terraço e os copos de plástico e o bolo, A. numa aula de Sociologia, A. num domingo à tarde na casa dos pais, descalça, a primeira vez que foi ao cinema, os seus colegas sentados no passeio a sacudirem os sapatos, uma bola, espuma, a sua terra natal, lá, longe, do outro lado, perdida, tão distante que a consegue sentir em cima, pesada, vê a imagem conservada pelo poder imaterial da memória que sempre permitirá reconhecer um lugar depois de demasiado tempo, como a luz do pátio da escola que ainda não entra no salão, apesar da força, porque uma coisa puxa outra, inclusive quando se está parado, estático, durante a noite, num salão, há várias horas, há muito tempo, combatendo algo, o mundo, o Outro, num duelo particular no meio da guerra, no mesmo sitio, num quadrado, numa parcela que toca os sapatos, os pés, cada osso, o estômago, o coração, porque a ação está tão concentrada que passa, como dizer isto?, inadvertida: com cada recordação, misturam-se experiências, como se a luz e o movimento saíssem pelos olhos e formassem algo novo, ou contribuíssem para a construção daquilo a que se chama memória, que, na cabeça dele, está ligada à incompreensão do mundo, mas sobretudo ao absurdo dos acontecimentos que marcam a sua vida, e talvez estimulado pelo silêncio, pela sensação, confessa, conta-me ao ouvido, que, agora, descobre que há algo que o distingue dos outros: que sua cabeça cresce como borbulhas de sabão, que está perdido, que há demasiada distância, sempre, que quando a luz entrar pela janela do salão não haverá nada no espaço, apenas ele, só.

 

BELINO COSTA

1º PRÉMIO . 4º ESCALÃO

 

Uma questão de batatas


Era domingo e o crepúsculo crescia no amolecimento de um entardecer quente e festivo. Estávamos em julho, ouviam-se foguetes estoirando para os lados do Troviscal. Um homem, de baixa condição social, agricultor apaixonado pelo cultivo da terra, sexagenário, senhor de uma existência discreta, saltou para o motociclo com pressa de chegar a casa.
Despedia-se de uma tarde bem passada na Palhaça. O convívio com os amigos, bem aproveitado para publicitar a sua urgência em vender umas boas arrobas de batatas, tinha corrido ao som do “agora pagas tu que a seguir pago eu”. O tintol balançava-lhe na barriga e a possibilidade de fazer negócio com o Amílcar Batateiro fervilhava-lhe na cabeça enquanto destravava a motorizada e metia a primeira.
Era um pulinho até chegar a casa, nem valia a pena apertar o capacete. A ceia já devia fervilhar na panela. Acelerou, contente por poder saborear o vento e regressar a Bustos. Alegre e satisfeito, devorava paralelepípedos, acreditando que, quando o Amílcar Batateiro fosse ver o produto não iria recusar o negócio. Sorrindo, rodou ainda mais o manipulo do acelerador, dando graças às batatas, que já, anos antes, lhe haviam permitido comprar a máquina veloz, deixando para trás a sua velha e lenta bicicleta.
Tinha passado o último cruzamento da Palhaça, entrava na reta do Sobreiro, quando um militar da GNR saltou da berma da estrada para o mandar parar. O gesto autoritário do polícia surpreendeu de tal forma o condutor do veículo de ruas rodas que só uma travagem, tão aflita quanto trapalhona, evitou o atropelamento do distinto militar.
– Desculpe, ó senhor guarda! Sabe, não estou habituado a estas surpresas, então o que deseja? – perguntou o homem que suava no esforço de manter o motociclo direito. E em pé. A máquina parecia querer fugir-lhe das mãos.
O guarda, um rapaz novo, recém-saído da Escola da Polícia, olhou o motociclista, uma figura caricata transpirando muito, com um capacete laranja a abanar em cima da cabeça, e fez cara séria. Ao invés, sorria o cidadão, incapaz de perceber o que se avizinhava. E quanto mais exibia o riso nervoso, mais espalhava um intenso odor a vinho tinto.
– Encoste aí a motorizada. Vai fazer o teste de álcool! – ordenou o militar, já devidamente acolitado por um companheiro.
– Mas um teste para quê? Eu confesso tudo! – declarou o homem numa inequívoca demonstração de inocência. Não era pessoa para mentir, nem via mal algum no convívio com os amigos. E em tais ocasiões, um vinhito é coisa quase obrigatória, é mesmo uma necessidade. Então, não vê o senhor guarda que até é usado na missa?!
Desta feita, o militar sorriu, mas logo endireitou o rosto e franziu o sobrolho, implacável:
– Vai fazer o teste!
– Ó senhor guarda, o senhor não está a compreender – insistia o atarantado motociclista, no esforço
inglório de explicar as variadas e boas razões que levam um cidadão, marcado por uma vida dura de
trabalho no campo, a esfregar a alma com uma daquelas pomadas de uva que só alguns, os mais
especiais, ainda são capazes de fazer. O homem queria reivindicar o direito ao seu copo de tinto, um
direito inalienável, pessoal e intransmissível.
Não tinha dinheiro nem cultura. Não tinha carro e as terras que cultivava não eram propriedade sua,
mas tinha o suficiente para retribuir e pagar uns copitos aos amigos. Tudo normal, portanto.
O guarda não era da mesma opinião e permaneceu inflexível. Chegou entretanto o companheiro,
exibindo um aparelho com um tubo transparente na ponta. Arreliado, lá se viu forçado a soprar no
tubo, coisa que lhe pareceu mais fácil do que tocar pífaro. Soprou com força, com raiva e com
verdade. Não estava ali para enganar ninguém.
– O senhor acusa uma taxa de alcoolemia de 1,59 gramas – anunciou o militar, usando uma
linguagem incompreensível.
Foi preciso algum esforço policial para o agricultor entender que estava metido numa grande alhada.
Tão grande que já não poderia voltar a conduzir a sua motorizada. Com gestos seguros e expressão
solene, adiantaram que tinham de o levar para o Posto, a fim de realizarem um novo teste, ou
qualquer coisa parecida. Foi então que o motociclista, que só tinha pressa em regressar ao lar, ergueu
as mãos ao céu.
– Vocês não me façam isso que eu já devia estar em casa. A esta hora a minha patroa já tem a ceia a
sair da panela. Olhem que, se me atraso, ela mata-me!
Mas aqueles guardas nem pareciam gente, tão direitos, tão sérios, tão educados e, ainda por cima,
falavam como se fossem doutores ou homens de leis. Bem argumentou, insistindo que não tinha feito
nada demais. Não havia razão de ser tratado como um bandido, ele que não era homem para arranjar
problemas a ninguém.
– A ninguém, senhor guarda! Deixe lá isso, estou tão perto de casa…
Repetiu argumentos, mostrou no rosto um desespero tão genuíno quanto os calos que exibia nas
mãos, invocou até as rugas e os cabelos brancos, tudo sem sucesso. Os homens da GNR estavam
determinados e enfiaram-no no carro patrulha, tal e qual se faz a um malfeitor. Era já noite escura.
Foi no súbito aconchego do automóvel policial, naquela quase intimidade, ainda não tinham chegado
ao Sobreiro, que o homem tentou resolver a coisa da melhor maneira para todas as partes. Ainda que
no seu íntimo sentisse bem a humilhação e a injustiça.
– Ó senhor guarda, não me faça mal, que eu não fiz mal a ninguém. E lá por ter bebido uns canecos, também não é por aí que dou prejuízo. Vá lá! Pare o carro, deixe-me sair, que eu lhe ofereço um saquinho de batatas, mas das melhores! Batatas novas, plantadas e criadas por mim. Um mimo, pode crer que não há coisa assim em Portugal inteiro. Portugal? Qual Portugal, qual quê!? Nem na China, quanto mais!
Aquele polícia deveria pertencer a uma geração que, provavelmente, já só apreciava batatas em pacote, porque nem lhe respondeu, mantendo o perfil esfíngico. Ainda assim não desistiu, acreditando que aquele jovem guarda, tão longe de conhecer a importância da batata nova, não levaria a melhor. Podia não apreciar batatas, mas decerto bebia uma cervejinha.
Tossiu por fingimento e disfarce, levando a mão ao bolso das calças onde guardava o carcanhol. Lá no fundo, dobrada em quatro, tateou uma nota de cinco euros. Pegando em tal fortuna, ofereceu-a ao guarda.
– Ó homem, você sabe o que está a fazer?
O agricultor respondeu com candura:
– É para você e o seu colega beberem uma cervejinha. Como não apreciam o tinto, nem gostam de batatas…
O motociclista, que só tinha pressa de chegar a casa, foi detido e presente ao juiz no dia seguinte, levando no alforge dois delitos: condução sob o efeito do álcool e tentativa de corrupção. O magistrado de serviço, homem experiente e sensato, torceu o nariz mal leu o relatório policial. Entre dentes terá resmungado: “Fazem-me perder tempo por causa de cinco euros e um saco de batatas!” Suspirou profundamente e encarou o motociclista que, na sua frente, não escondia a humilhação. Perguntou-lhe o nome, a idade e a profissão. Respondeu o homem sem levantar os olhos:
– Chamo-me Jacinto, tenho 62 anos e sou lavrador. Mas também sou colega de Vossa Excelência.
– O quê, é juiz?
– Da Irmandade de S. Lourenço de Bustos.
Provavelmente tocado com a autenticidade da resposta e a postura humilde de Jacinto, o magistrado, sem perder mais tempo, despachou o caso, resumindo a contenda a uma mera repreensão e alguns conselhos. Depois, despediu-se do homem dizendo:
– Bom regresso a casa, caro colega.
E os dois sorriram, solenemente.

 

MARIA MIGUEL BILOBA

3º PRÉMIO . 4º ESCALÃO


Para sempre dezembro


Dezembro entrara de mansinho pelas casas e deixara um rasto de frio e um anseio por aconchego.
As luzes, naquele dia, acendiam-se a pouco e pouco, feéricas e irreais, por todas as ruas da aldeia e conduziam os viajantes até à parte de cima do lugar, onde a ermida se recortava branca e imaculada no céu plúmbeo e espesso. O Inverno já chegara ali.

Ouviam-se os balidos das ovelhas, apertadas nos currais, à espera da mão que as alimentaria e de todos os outros animais recolhidos sentiam-se os cheiros, que misturados, exalavam simultaneamente calor e vertigem.
As casas acendiam-se de luzes e memórias de outros natais. Das chaminés saíam colunas de fumo espiraladas que se dissipavam no céu. Em todas se ouviam vozes, risos. Habitadas de presença e de gestos. Lá fora crescia o silêncio da noite.
Eu acendera também a lareira, mil gestos repetidos do quotidiano secular. Também eu fazia os preparativos. Fechara os animais. Trancara as portadas. Dispusera lenha para a noite. Para dentro trouxera também a ninhada de cachorros que a cadela mais jovem acabara de parir. Pareciam novelos pretos dentro do cesto de verga, aconchegados ao corpo materno. Colocara-o na sala. Junto à poltrona de couro gasta pelo tempo, embaladora de histórias. Nas arestas das paredes solitárias da casa, as memórias desfolhavam-se também, uma a uma, como as folhas do magnífico jinco no jardim. Em todas as restantes árvores, quase despidas das folhas multicolores que atapetavam agora todo o pátio abandonado, havia já desolação e espera.
Subitamente, uma revoada de vento mais forte levantou parte do telhado e rebentou com o meu baloiço que penduraras na oliveira maior. Subi ao sótão e compus de esperança as telhas sob um céu espesso, de zinco frio onde, ao longe, se ouviam pássaros aflitos na tempestade. Fui ao celeiro apaziguar as ovelhas e, de volta a casa, pus a chaleira ao lume.
Percorri com o olhar a mesa de pinho escuro na qual se amontoavam pétalas das últimas rosas de um estio tardio. O pão ainda quente repousava também sobre a mesma mesa. A lareira crepitava e a água já fervia forte na chaleira azul. Na cozinha, alinhavam-se, na prateleira, as compotas de abóbora com nozes e de figos e espalhava-se, impregnando o ar, o cheiro a
canela e a maçã da tarte ainda morna no fogão de lenha.
O Outono esgueirara-se por entre os dias. Agora, o Inverno tinha tomado conta de tudo: arrasou canteiros, depenara todas as árvores e torcera o cata-vento.
Senti a luz fraquejar. O vento uivou, primeiro suave, como um sopro que se levanta da terra, depois foi crescendo, ganhando espaço aos silêncios do mundo, fustigou árvores e dilacerou todo o roseiral. A cancela começou a bater descompassadamente solta. E o cata vento parecia perseguido por mil demónios. A portada grande da sala soltou-se. Abriu os vidros, devorando as folhas que se amontoavam na secretária, acabadas de escrevinhar. Folhas de pensamentos, de poemas de amor, de palavras antigas e repletas de segredos e de memórias. Tombou a moldura. O vidro estilhaçou. O teu retrato ficou nu e inerme, por segundos, arrebatado pela natureza. Corri a trancar tudo novamente. Indefesa e assustada. Um poço no lugar do coração.
Olhei as estantes de livros, repletas de personagens, de aventura, de mistérios, de segredos. Imaginei-me a ler- te um conto. Aquele conto que tu tanto apreciavas que te lesse nas longas noites em que faltava a luz e eu junto à lareira, repetia, incansável e melodiosa, a história da princesa do Oriente. Eu povoava-te o coração de personagens e histórias de amor, tu incendiavas-me sedutoramente a imaginação com formas e paletas de cores de todas as paisagens visitadas e de todas as viagens.
Evoquei no espaço da memória o meu trabalho do campo, na tua ausência para que não morresse o teu sonho: semeei, mondei, reguei, colhi Em casa pintei as paredes brancas, fiz cortinas de linho antigo e pintei um quadro: lua, sangue, sol, música. Decidi tricotar uma manta de rosas em malha. Cada uma que cosia, olhava pela janela e acreditava que ficarias mais perto. Um dia taparia os serões mais frescos…
Na sala vi, a repousar, os novelos de lã macia na cesta de vime. Serviam para tricotar sapatinhos para oferecer; na outra cesta dormitavam os cachorros. Tudo o mais era silêncio, no crepitar do lume, na respiração fria e funda da noite. Coloquei a manta no chão. Temi mais uma vez que não voltasses. Estreitou-se o medo na garganta e ampliou-se o poço no peito.
No cais do velho porto imaginei as gaivotas. Perseguiam os pombos na praça e picavam nas suas cabeças. Caiu parte do campanário. As velhas da aldeia costumam tecer agouros nestas ocasiões, lembrando que os homens do mundo não regressarão a suas casas, a suas esposas.
A chaleira azul já ferveu três vezes e a manta de retalhos que estendi já nada me aquece contra o frio da angustiada solidão. A cancela bateu desalmadamente. O meu coração acelerou também, pássaro preso num porão de um barco abandonado.
Sonhei-te comigo. Nessa noite, mais forte do que nas outras. Sonho de todas as famílias, desejo de todas as mulheres sós. Noite de natal, noite de esperança. Noite de regressos.
Deitei-me na escuridão do quarto. Perscrutei sombras, pressenti ruídos exteriores. Julgo que rezei, abençoada pela noite de consoada e pela dádiva da vida divina e ancestral que de forma solene e simbólica cobria todo o lugar. Adormeci nesses pensamentos e, quando acordei, senti-te no carreiro de lilases, nas lajes do terraço, na brisa das roseiras, no cheiro que se desprendeu do alecrim à tua passagem. Entraste no telheiro, sacudiste as botas, pousaste o saco na cozinha e, por fim, desenhaste sombras mágicas nas paredes brancas.
Comeste da tarte de maçã e pousaste o alecrim que me costumavas dar no bule antigo de porcelana. Do quarto adivinhava-te os gestos, as feições. Na sala acarinhaste os cães e compuseste a lareira. Trazias contigo a alegria de uma alvorada e o coração cheio de sóis para
me aqueceres finalmente de todas as noites frias e sombrias. Quando entraste no quarto já a tua presença estava há muito em mim. O teu olhar já navegava no meu e já percorrera a minha pele. Sim, chegaras finalmente.
Os meus cabelos espalhavam – se pela almofada em pequenos montes que se agrupavam aqui e além, provocando manchas castanhas-douradas nas almofadas de linho. Tudo em mim estremecia só de sentir a tua respiração pausada. Ali, ao meu lado. O meu corpo coberto
apenas por uma fina camisola transparente, deixava adivinhar todos os contornos. Sentia-me trespassada de sensações espiraladas num crescente de desejo que se espraiava devagar por toda a minha pele até às pontas dos meus dedos, tendo sempre, como motor acelerado, a pulsação do meu coração. Depositaste com toda a leveza um beijo na minha testa.
O meu rosto abriu-se num sorriso de luz, de estrelas cadentes, de cambiantes de mil cores. Os meus olhos brilharam de uma forma que te deixaram quase embriagado na vontade de neles te perderes. Descalça, com os cabelos desalinhados e na penumbra, enlacei-me em ti. Demorei-me lentamente no encontro dos dois corpos, saboreando cada instante. As minhas mãos delicadas, mas firmes, insistiram no chamamento, na ansiedade de que sobre mim te deitasses. Pressentiste a minha urgência terna, mas também a tua sede pela sintonia dos movimentos que se encaixavam a espaços largos na mesma rota de destino.
No meu colo pousaste uma rosa e uma estrela
Em nome do Amor.

CARLOS VINHAL SILVA

MENÇÃO HONROSA 4º ESCALÃO

 

O jovem que não quer fugir da morte


No mundo, num dia em que ainda estou vivo,
Estamos todos a morrer! Alguns têm mais calma, seguem em silêncio e medem os passos que dão, outros são açodados e parecem sentir um afã imenso de chegar. E ainda há aqueles que, querendo ir devagar, não têm outra opção que não seja correr em direção ao futuro que não têm. Estamos todos a morrer! E a morte fascina, assusta! Suscita reflexões e pensamentos, gera temores e pânicos. Temos medo da morte! Por que razão, se estamos todos a morrer?
E maldizemos o mundo, a vida, a morte, o tempo. Queixamo-nos se morremos novos, reclamamos por ser velhos e sentimos a morte a espreitar, protestamos a injustiça da vida e rogamos pragas à rapidez do tempo. Não temos a mais pequena noção que estes problemas são comuns a toda a Humanidade, não temos sequer a ideia da impossibilidade que é lutar contra conceitos tão abstratos como são o mundo, a vida, a morte e o tempo, nem do quão dantesca e quimérica seria essa luta!
O aviso da morte, da efemeridade da vida e da passagem do tempo sempre nos foi feito: “O ser humano é um ser vivo! E todos os seres vivos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem.”, sempre me disse a minha professora do ensino primário. Portanto, por que motivo nos queixamos tanto se estamos a morrer desde que nascemos? Por que razão tememos o fim da vida se nem sabemos o que é a vida e qual o seu sentido? E por que raio reclamamos com a passagem do tempo se não o conseguimos controlar?
Afinal, por que haveríamos de recear algo inevitável e cujo domínio não está ao nosso alcance? Todavia, tampouco podemos deixar que este medo da morte tolhe a nossa vida e os nossos sonhos. Não nos podemos permitir ser escravos desta cessação da vida, que, aos nossos olhos, tem tanto de cruel e atroz como de inesperado. Porém, não é assim! Devemos esperar a morte, pelo menos a um nível racional, desde o momento em que chegamos ao mundo e devemos prepararmo-nos o mais possível para ela.
Bem sei que o nosso medo da morte não é racional. Se o fossemos capazes de racionalizar, esse temor deixaria de existir. E contra mim falo, que também sou incapaz
de deixar o receio da morte. Não a minha, que essa pouco me dirá, uma vez que já não estarei por aqui para a sentir e será um problema daqueles que gostam de mim e que, só posso esperar, sofrerão a minha perda. Temo, isso sim, a morte de outros e sou sempre apanhado de surpresa quando ela surge. Foi assim toda a minha vida e assim continuará a ser, apesar de estar perfeitamente consciente que toda a vida tem um fim e que todas as pessoas, cedo ou tarde, acabarão por morrer. No entanto, estas mortes são sempre inesperadas e dolorosas porque são sentidas por nós, porque, com essas pessoas, morre sempre um pouco de nós. É como se um pedaço da nossa alma se soltasse do corpo e fosse ao encontro dessa outra alma que amamos e que arrebatou para o Céu.
Sim, eu sei! Nem todos acreditamos em Deus, ou temos fé num Deus diferente, mas este sentimento de perda é o mesmo. É este sentimento que converte a morte num medo muito mais emocional, que muitas vezes nos controla. Assim, vivemos consoante as emoções que deturpam a nossa visão da realidade e não consoante os pensamentos que temos e as reflexões que fazemos. Ignoramos a razão, escutamos o coração e tememos coisas tão estúpidas como a morte.
Como consequência, vivemos em função do momento, num carpe diem desmesurado que o torna absurdo. Apenas as nossas emoções estão corretas, as dos outros estariam erradas se, aos nossos olhos, existissem. Não pensamos no futuro, nem nos efeitos das nossas ações. As nossas emoções adquirem a categoria de valores e princípios universais, algo inadmissível para uma convivência saudável em sociedade.
Talvez seja este o motivo pelo qual a Humanidade que em nós existe esteja também a morrer. A Humanidade não morre nunca com uma pessoa: não morreu com Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A Humanidade apenas morre quando nos esquecemos que somos animais sociais, somente capazes de existir com os outros. E se a metáfora da vida e da morte que aqui utilizamos se reveste de uma grande intensidade ou complexidade, então pensemos nos verdadeiros valores como o processo digestivo: ou ocorre absorção ou sai merda! E parece-me, que nos dias de hoje, estamos com uma diarreia incontrolável, não havendo nenhuma panaceia minimamente capaz de nos auxiliar.
Colocamos determinados valores num pedestal, desprezamos alguns e somos incoerentes com outros. Tudo isto contribui à deterioração axiológica da sociedade atual, é um fator de risco para a morte da Humanidade inerente a cada um de nós. Não há moral, não há ética. Os princípios servem apenas para cumprir fins, o meio pouco ou nada importa. Se este é o futuro, então, por favor, que o meu processo de morte se acelere, que não depereça, mas que pereça de uma vez!
É a perda da Humanidade que dita a perda de tudo. Quando não nos sobrar nada, que seremos? Não nos podemos considerar mais seres humanos, porque já não possuímos a característica que nos dota desse privilégio. Tampouco nos poderemos considerar animais racionais, porque, tendo oportunidade de a utilizar, optámos por não o fazer. Creio que não seremos mais que animais impuros sequer de pisar o chão que têm debaixo dos pés, meros vermes e parasitas que destroem o mundo e o contaminam de enfermidades. Temos de lutar por manter os bons valores vivos: a vida, a dignidade, o respeito, o amor, a Humanidade! Se a morte biológica é uma realidade da qual ninguém pode fugir, o mesmo não ocorre com a morte axiológica. Se a morte biológica é uma certeza, temos de lutar enquanto estamos vivos para que a morte de valores não o seja.
É este o meu desejo de moribundo com noção de que estou a morrer lentamente. A minha doença chama-se vida, tem a agravante do tempo e da perda de valores. A morte é a única cura destes padecimentos dolorosos que já me foram causados na alma. Consciente de que não sei exatamente quando vou morrer, considerem-se estas palavras como o meu último suspiro, como o último grito de uma voz que, algum dia, se irá calar para toda a eternidade. Que se sintam estas palavras, que se reflitam sobre elas enquanto ainda há tempo e valores que nos guiem na existência.
Quem se perguntar quem sou eu, que saiba que não sou filósofo. A minha educação em Filosofia não se deu em salas de uma Universidade, mas na rua, na natureza, em conversas com pessoas que têm tanto de humanas como eu. Considerem-me um mero pensador que apenas deseja conhecer a realidade que o rodeia, sabendo que nunca conseguirá cumprir esse objetivo que tanto anseia. Creiam-me um simples sonhador que idealiza utopias. Pensem em mim como um Homem, com defeitos e virtudes, que não tem medo da sua morte e cuja pretensão é manter a Humanidade viva. Sou tudo isto, mas sou também um realista (aquilo a que a Filosofia chama de pessimista) e a realidade, inegável e indiscutível, é que estamos todos a morrer! E pior, estamos a deixar-nos morrer!
Pensador, sonhador, Homem, realista e moribundo

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